Dra. Laila de Laguiche
Setembro 2026
O diagnóstico precoce da hanseníase continua sendo um dos principais desafios para interromper a transmissão da doença e prevenir incapacidades. Para isso, é indispensável que profissionais da Atenção Primária à Saúde estejam capacitados para reconhecer seus sinais e sintomas.
Mas existe uma questão igualmente importante: não basta aumentar o número de diagnósticos. É preciso garantir a qualidade do diagnóstico.
A hanseníase é uma doença complexa. Suas manifestações dermatológicas e neurológicas podem se confundir com diversas outras condições. Por isso, ampliar a capacidade de reconhecimento da doença na atenção primária deve caminhar junto com formação adequada em diagnóstico diferencial, critérios claros de encaminhamento e acesso a profissionais com maior experiência.
Esse princípio está, inclusive, alinhado com a nova abordagem internacional de saúde integrada da pele. Documentos em desenvolvimento no contexto da SKIN NTDs propõem que algumas doenças sejam manejadas na atenção primária, outras reconhecidas e encaminhadas e, diante de incerteza diagnóstica, seja assegurado acesso à referência especializada e exames complementares.
O que mostram os estudos brasileiros?
Um amplo estudo publicado na Acta Tropica analisou 574.181 novos diagnósticos de hanseníase registrados no Brasil entre 2003 e 2017. Entre eles, 7.477 — aproximadamente 1,3% — foram posteriormente classificados como diagnósticos incorretos. Os autores identificaram associação entre erros diagnósticos e algumas modalidades de detecção ativa, além de situações clínicas de maior complexidade.
O trabalho chama atenção para um aspecto importante da descentralização do atendimento: colocar o diagnóstico mais próximo da população é fundamental, mas exige que os profissionais da linha de frente disponham de conhecimento, experiência e suporte para realizar adequadamente o diagnóstico diferencial.
Um segundo estudo investigou pessoas no Mato Grosso que inicialmente haviam recebido diagnóstico de hanseníase, posteriormente reconsiderado. Entre os diagnósticos alternativos encontravam-se doenças musculoesqueléticas e do tecido conjuntivo, como fibromialgia e doenças degenerativas da coluna, além de doenças dermatológicas.
O dado é particularmente relevante porque demonstra algo conhecido por quem trabalha com hanseníase: nem toda alteração de sensibilidade, dor neuropática ou lesão cutânea é hanseníase. Reconhecer a doença exige também conhecer aquilo que pode se parecer com ela.
Uma terceira pesquisa, realizada em Curitiba, avaliou o conhecimento sobre hanseníase entre médicos da atenção primária e comparou seu desempenho com o de dermatologistas. Os médicos da atenção primária reconheceram menos apresentações clínicas da doença, e 56,2% declararam possuir pouco conhecimento sobre hanseníase.
O resultado não diminui a importância da atenção primária. Ao contrário: demonstra por que educação médica continuada e acesso ao especialista precisam fazer parte do mesmo sistema de cuidado.
Capacitar para reconhecer – e também para saber quando encaminhar
Esses estudos não demonstram que capacitar médicos generalistas provoque sobrediagnóstico. A conclusão é mais importante e mais útil para a saúde pública: descentralizar o diagnóstico de uma doença complexa sem oferecer formação continuada, suporte diagnóstico e acesso à referência especializada pode comprometer a qualidade do cuidado.
O profissional da atenção primária precisa estar preparado para suspeitar de hanseníase, realizar uma avaliação clínica inicial adequada e reconhecer os principais diagnósticos diferenciais. Mas também precisa saber identificar a incerteza diagnóstica e encaminhar os casos atípicos ou complexos.
Esse conceito está presente no modelo de formação proposto para a saúde integrada da pele: a capacitação não deve ser medida apenas pelo número de cursos realizados, mas pela competência adquirida, qualidade do atendimento, supervisão, mentoria e acesso à opinião especializada, inclusive por teledermatologia quando apropriado.
Diagnóstico precoce e diagnóstico correto devem caminhar juntos
Na hanseníase, atrasar o diagnóstico pode significar transmissão continuada, dano neural e incapacidade. Mas um diagnóstico incorreto também tem consequências: exposição desnecessária a medicamentos, investigação inadequada da verdadeira doença e, ainda, o impacto social e psicológico de receber o diagnóstico de uma condição historicamente associada ao estigma.
Por isso, a discussão não deve ser entre centralizar ou descentralizar o diagnóstico.
O caminho mais seguro é construir uma rede: atenção primária capacitada para reconhecer e suspeitar; serviços de referência disponíveis para os casos de maior complexidade; exames complementares quando necessários; e mecanismos que permitam ao profissional da linha de frente consultar rapidamente quem possui maior experiência.
A própria arquitetura proposta para SKIN NTDs caminha nessa direção ao associar atenção primária, treinamento, vias de referência e apoio especializado, em vez de tratar esses componentes isoladamente.
Diagnosticar precocemente continua sendo uma prioridade. Mas diagnosticar precocemente não basta. Precisamos diagnosticar corretamente.
Referências
- Neves KVRN, Nobre ML, Machado LMG, Steinmann P, Ignotti E. Misdiagnosis of leprosy in Brazil in the period 2003–2017: spatial pattern and associated factors. Acta Tropica. 2021;215:105791. DOI: 10.1016/j.actatropica.2020.105791.
- Neves KVRN, Machado LMG, Nobre ML, Steinmann P, Ignotti E. Self-reported clinical history of misdiagnosed leprosy cases in the State of Mato Grosso, Brazil, 2016–2019. Cadernos de Saúde Pública. 2023;39(5):e00279421. DOI: 10.1590/0102-311XEN279421.
- Leprosy knowledge among primary care physicians in Southern Brazil: are we underdiagnosing? 2024. PubMed PMID: 38978163.









