Brasil vai na contramão da queda mundial da hanseníase e concentra mais de um quarto das incapacidades graves detectadas no mundo, segundo dados da OMS
Relatório global de 2025 mostra aumento de casos novos no país e reforça urgência do diagnóstico precoce e da prevenção de incapacidades
A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou em 18 de setembro de 2026 a atualização global sobre a hanseníase referente a 2025, no Registro Epidemiológico Semanal (WER nº 36-37). O relatório registra queda de 3,1% nos casos novos no mundo. O Brasil, porém, seguiu a direção oposta. O Instituto Aliança Contra Hanseníase (AAL) analisou os dados e alerta para o peso das incapacidades físicas entre as pessoas acometidas pela hanseníase no país.
Em 2025, o Brasil notificou 22.901 casos novos, 3,5% a mais que no ano anterior. Com isso, segue como o segundo país com mais diagnósticos no mundo, atrás apenas da Índia. A partir de dados da OMS, o país responde por quase 94% dos casos das Américas. A taxa de detecção brasileira, de cerca de 10,8 casos por 100 mil habitantes, é aproximadamente cinco vezes maior que a média mundial.
O relatório apontou que 2 crianças são diagnosticadas com hanseníase por dia, no Brasil, totalizando 739 por ano no país.
O dado que mais preocupa é o das incapacidades físicas. Foram 2.469 casos novos diagnosticados já com incapacidade grau 2, ou seja, com deformidades visíveis e irreversíveis nos olhos, mãos ou pés. Segundo cálculos do AAL a partir de dados da OMS, o número corresponde a 10,8% dos diagnósticos no país, quase o dobro da proporção mundial (5,6%). O Brasil concentra mais de um quarto (26,2%) de todas as incapacidades de grau 2 detectadas no mundo (score de 0 a 2).
“Cada caso diagnosticado com incapacidade é um diagnóstico que chegou tarde. Os números da OMS mostram que o Brasil precisa avançar na busca ativa e na detecção precoce. Também mostram que milhares de pessoas acometidas pela hanseníase precisam de reabilitação, tecnologia assistiva e acompanhamento contínuo, mesmo depois da cura”, afirma Dra. Laila de Laguiche, fundadora e presidente do Instituto Aliança Contra Hanseníase – AAL.
Além disso, o Brasil registrou 1.750 recidivas em 2025, 42,7% de todas as notificadas no mundo. O país também soma 4.150 casos de retratamento, cerca de um terço do total global. Os números reforçam a importância do acompanhamento das pessoas acometidas durante e após o tratamento.
O relatório traz outros sinais de alerta para o país. As taxas de conclusão do tratamento ficaram em 75% para os casos multibacilares e 80% para os paucibacilares, abaixo do patamar de 85% considerado adequado pela OMS. Além disso, 82,4% dos casos novos brasileiros são multibacilares, a forma transmissível da doença, e as mulheres representam 47% dos diagnósticos, acima da média global de 38,8%.
Apesar dos esforços empreendidos no país, a série histórica da OMS mostra que o Brasil mantém, desde 2023, um patamar estável e elevado de diagnósticos, entre 22 mil e 23 mil casos novos por ano. Somada à alta proporção de pessoas diagnosticadas já com incapacidades, a estabilidade indica que a doença continua sendo detectada tardiamente e que a transmissão segue ativa.
O documento destaca o combate ao estigma, que ainda se expressa em leis discriminatórias vigentes em 11 países. Mulheres e crianças acometidas pela hanseníase enfrentam formas específicas de estigma e barreiras próprias de acesso ao diagnóstico e ao tratamento, o que exige estratégias voltadas às suas necessidades. A organização afirma ainda que o envolvimento das organizações de pessoas acometidas pela hanseníase não é apenas um componente da eliminação, mas a base sobre a qual ela se sustenta. Por isso, uma abordagem centrada na pessoa exige participação contínua e estruturada desses pacientes, reconhecidas como parceiros essenciais, e não como beneficiários passivos.
Entre os avanços, a OMS cita a verificação da eliminação da hanseníase no Chile e a expansão da profilaxia pós-exposição com dose única de rifampicina (SDR-PEP), já adotada por 68 países. Ressalta ainda que nenhuma dessas intervenções funciona como um modelo único para todos os contextos, e a avaliação neural periódica é essencial para a qualidade do tratamento, minimizando as incapacidades decorrentes da doença.
Para o AAL, os dados confirmam a importância de unir diagnóstico precoce e prevenção de incapacidades. Por meio de suas ações TECHansen (tecnologia assistiva), FeetHansen (calçados e palmilhas sob medida, com a rede de Sapatarias AAL) e DOCHansen (teleinterconsulta e apoio psicológico), o Instituto atua para que as pessoas acometidas pela hanseníase tenham acesso a cuidado integral, autonomia e qualidade de vida. Alem disso, a avaliação neurológica periódica, durante a após o tratamento, é fundamental para minimizar as deficiências provocadas pela doença.
Sobre o Instituto Aliança Contra Hanseníase (AAL)
O Instituto Aliança Contra Hanseníase (AAL) é uma organização da sociedade civil sediada em Curitiba (PR), com atuação internacional, qualificada como OSCIP, que atua no enfrentamento da hanseníase por meio da ciência, da educação e da assistência. É observador consultivo da CPLP, membro da GlobalSkin e apoiador oficial da International Leprosy Association (ILA).
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Fonte: WHO. Global leprosy (Hansen disease) update, 2025. Weekly Epidemiological Record, nº 36-37, 18 set. 2026. Os percentuais e taxas referentes ao Brasil são cálculos do Instituto Aliança Contra Hanseníase a partir dos dados absolutos publicados pela OMS (Tabelas 2 e 5).









