Hospital São Roque chega aos 100 anos como case de sucesso: oficina de palmilhas implantada com o AAL agora caminha com recursos próprios
Em dois anos de cooperação técnica, a oficina atendeu 228 pessoas acometidas pela hanseníase de 76 municípios paranaenses. Desde agosto de 2026, o HDSPR mantém o serviço de forma autossustentável, e o AAL segue parceiro em novas frentes, principalmente na ciência.
O Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná (HDSPR), o histórico Hospital São Roque, em Piraquara, completou 100 anos em 20 de outubro de 2026. O centenário coincide com uma conquista: a Oficina de Palmilhas e Adaptação de Calçados, implantada em cooperação com o Instituto Aliança Contra Hanseníase (AAL), passou a ser mantida integralmente pelo hospital, com recursos próprios, desde agosto de 2026. O resultado faz do HDSPR um modelo de autossustentabilidade a ser seguido por outros serviços de referência no país.
Nos dias 28 e 29 de outubro, o HDSPR sedia o 2º Encontro de Hospitais Parceiros do AAL. Participam o Instituto Lauro de Souza Lima (Bauru-SP), o Hospital São Julião (Campo Grande-MS) e a Fundação Hospitalar Alfredo da Matta (Manaus-AM), entre outras instituições de saúde de diferentes regiões do país.

Um século de história da hanseníase no Paraná
A antiga colônia São Roque foi inaugurada em 20 de outubro de 1926, no então município de Deodoro, hoje Piraquara, a cerca de 25 quilômetros de Curitiba. Na época, sem tratamento eficaz para a doença, a política sanitária brasileira determinava o isolamento compulsório das pessoas diagnosticadas. Pacientes de todo o estado chegavam de trem para uma vida inteira longe da família.
Considerado um estabelecimento-modelo para os padrões da época, o São Roque chegou a abrigar cerca de 1,3 mil pessoas ao mesmo tempo. Em uma área de mais de 20 alqueires, funcionava como uma pequena cidade, com casas, igreja, cinema, correio, cemitério e até uma cadeia.
A ciência mudou esse destino. A poliquimioterapia, adotada pela Organização Mundial da Saúde a partir de 1981, tornou a hanseníase curável. O isolamento compulsório, formalmente extinto no Brasil em 1962, deixou marcas que o país ainda busca reparar. Em 1983, o São Roque deixou de ser hospital-colônia e passou à gestão da Secretaria de Estado da Saúde. Em 1990, recebeu o nome atual de HDSPR.
A jornada das Irmãs Franciscanas de São José
Nenhuma página dessa história pode ser contada sem as Irmãs Franciscanas de São José. A congregação, fundada na Alemanha em 1860, chegou ao Brasil em 1926 justamente para assumir a enfermagem e a assistência espiritual do São Roque, recém-inaugurado. Por décadas, as religiosas administraram o hospital, cuidaram de feridas, organizaram a rotina da colônia e ofereceram acolhimento a quem havia perdido o convívio com a própria família.
Em tempos de medo e estigma, a presença das irmãs foi, para muitos internos, a forma mais concreta de dignidade. Esse laço atravessou o século: as comemorações do centenário começaram em 18 de outubro com uma missa celebrada pela congregação, que segue presente na história da instituição.

Gestão atual: do isolamento à referência
Mantido pelo Governo do Paraná e gerido pela Fundação Estatal de Atenção em Saúde (Funeas), o HDSPR é dirigido por Maristela Zanella. Desde a reestruturação iniciada em 2020, o hospital passou de 25.889 atendimentos em 2021 para 167.051 em 2025, cerca de 500 por dia. Atende 56 municípios em dermatologia, hanseníase, cirurgia vascular e ambulatório de feridas complexas.
O hospital também forma especialistas: o Programa de Residência Médica em Dermatologia, implantado em 2023, formou sua primeira turma em 2026, sob comando do Prof. Dr. Caio Castro. A memória é preservada no Museu São Roque (Musar), primeiro museu paranaense dedicado à história da hanseníase. Um investimento estadual de R$ 39,5 milhões prevê, até 2027, um Ambulatório Médico de Especialidades com 54 consultórios, centro cirúrgico e oxigenoterapia hiperbárica.
Dois anos de cooperação: 581 atendimentos e um serviço que não existia
O Termo de Cooperação nº 002/2024, firmado entre o AAL e o HDSPR/Funeas/Sesa, implantou no hospital uma Oficina de Palmilhas e Adaptação de Calçados. Segundo o relatório final do hospital, era um serviço até então inexistente na instituição e de difícil acesso na rede pública de saúde do Paraná. O AAL forneceu equipamentos em comodato, insumos de forma contínua, capacitação e apoio técnico. O HDSPR garantiu a infraestrutura e uma equipe de fisioterapia e terapia ocupacional. Todas as metas do termo foram cumpridas.
| Indicador (abril/2024 a abril/2026) | Resultado |
|---|---|
| Atendimentos registrados | 581 |
| Pacientes atendidos | 228 (146 homens e 81 mulheres) |
| Idade média | 58 anos (de 14 a 86 anos) |
| Municípios de origem | 76 |
| Pacientes em tratamento ativo / com sequelas | 63 / 155 |
| Pacientes com Grau 2 de incapacidade física | 166 (72,8%) |
O perfil dos atendidos mostra a dimensão do desafio. Quase 96% dos pacientes já apresentavam algum grau de incapacidade física, e 72,8% chegaram com Grau 2, o mais grave, com deformidades ou lesões visíveis. A hanseníase compromete a sensibilidade dos pés, e ferimentos que passam despercebidos podem evoluir para úlceras e amputações.
Para essas pessoas, a oficina confeccionou palmilhas com barra metatarsiana e arco medial, suportes de metatarso e calcâneo, férulas de Harris e sandálias adaptadas dos modelos Baruk e Carville, além de adaptações em calçados para proteger áreas com lesões ou curativos. Cada dispositivo foi acompanhado de avaliação, entrega e reavaliação, com foco na prevenção de incapacidades e na autonomia.
Autossustentabilidade: o HDSPR assume a oficina
Com o fim da vigência do termo, o HDSPR alcançou a autossustentabilidade do serviço. Desde agosto de 2026, o hospital mantém a oficina com recursos próprios, garantindo a continuidade do atendimento às pessoas acometidas pela hanseníase em todo o Paraná. A transição, conduzida com excelência pela equipe do hospital, torna-se um case de sucesso a ser replicado em outros serviços de referência.
O resultado confirma o papel do AAL como impulsionador de tecnologias e soluções: implantar, capacitar e transferir, para que o cuidado permaneça. A parceria entre as instituições continua, agora com novas frentes de atuação, principalmente na ciência.
“O São Roque guarda a memória de quem foi afastado da sociedade pela hanseníase, em uma época onde não havia outra escolha. Ver o hospital se reorganizar, ampliar e também ter a sua oficina com recursos próprios é o melhor resultado que uma cooperação pode ter. A partir de agora, iniciamos um novo capítulo desta parceria: desejamos caminhar juntos na pesquisa científica, fortalecer a rede de aprendizado e compartilhar as boas práticas da hansenologia nacional tão admiradas no cenário internacional.”
Sobre as instituições
Sobre o Instituto Aliança Contra Hanseníase (AAL) — Organização sem fins lucrativos sediada em Curitiba (PR), fundada pela Dra. Laila de Laguiche e dedicada exclusivamente à hanseníase, nos eixos ciência, educação e assistência. Atua por meio de três programas: TECHansen (tecnologia assistiva), FeetHansen (calçados e palmilhas sob medida, incluindo a rede de Sapatarias AAL) e DOCHansen (teleinterconsulta médica e apoio psicológico). O AAL é Observador Consultivo da CPLP, membro da GlobalSkin e apoiador oficial da International Leprosy Association (ILA).
Sobre o Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná (HDSPR) — Fundado em 20 de outubro de 1926 como Leprosário São Roque, é mantido pelo Governo do Paraná e gerido pela Funeas. Referência pelo SUS em dermatologia, hanseníase, cirurgia vascular e feridas complexas, fica na Av. Frei Rui Guido Depiné, 1.115, Jardim Esmeralda, Piraquara (PR).
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