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O que o Brasil não pode perder

O Instituto Lauro de Souza Lima reúne quase um século de conhecimento, pesquisa e assistência. Preservar esse patrimônio exige reconhecer sua importância científica atual e assegurar sua continuidade.

Por Laila de Laguiche  
outubro, 2026

Em julho de 2026, tive a oportunidade de retornar ao Instituto Lauro de Souza Lima (ILSL), em Bauru, São Paulo, onde havia realizado meu curso complementar de Hansenologia em 2014. Doze anos depois, a visita permitiu-me observar a instituição sob uma perspectiva diferente, não apenas como centro de formação médica, mas como um patrimônio científico brasileiro de valor excepcional.

Ao longo de quase um século, o Instituto consolidou-se como uma das principais referências latino-americanas e internacionais em hanseníase. Sua importância, entretanto, não se resume à trajetória histórica. O ILSL permanece ativo na produção de conhecimento, na formação de especialistas, na assistência aos pacientes e no desenvolvimento de pesquisas relevantes para a saúde pública brasileira e internacional.

A construção desse patrimônio científico resulta do trabalho de sucessivas gerações de profissionais. Entre os nomes que marcaram sua trajetória estão Diltor Opromolla, o neurologista José Antonio Garbino, o dermatologista Jaison Barreto e a pesquisadora Patrícia Rosa, dentre tantos outros cujas contribuições ajudaram a consolidar a posição do Instituto na hansenologia.

Destaco também Marcos Virmond, cirurgião da mão, ex-diretor do ILSL e musicólogo. Sua trajetória reúne a prática médica, a pesquisa, a formação profissional e a capacidade de articulação científica. Sua atuação esteve ligada ao periódico Hansenologia Internationalis, e sua projeção internacional o levou à presidência da International Leprosy Association.

A Hansenologia Internationalis representa, por si só, uma contribuição relevante do Instituto para a difusão de pesquisas científicas, nacionais e internacionais, sobre a hanseníase. Criada em 1976 e mantida em atividade com acesso aberto em fluxo contínuo, a revista está indexada em bases de relevância como LILACS, Latindex e DOAJ. Em 2026, passou a integrar a prestigiada coleção SciELO, o que amplia ainda mais a visibilidade e o impacto global do conhecimento na área.

Essa dimensão contemporânea merece especial atenção.

O Instituto permanece como Centro Colaborador da Organização Pan-Americana da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS), mantém articulação com o Ministério da Saúde e participa de iniciativas nacionais voltadas à hanseníase, incluindo a Câmara Técnica Assessora da área. Seus pesquisadores integram redes de cooperação com universidades e instituições científicas de diversos países.

A extensão dessas relações internacionais é expressiva. Um levantamento da produção científica do ILSL entre 2016 e 2020 identificou colaborações com mais de uma centena de instituições, incluindo aproximadamente 70 organizações estrangeiras.

Trata-se, portanto, de um centro que continua inserido nas principais discussões científicas sobre a doença, contribuindo para pesquisas em diagnóstico, tratamento, microbiologia e resistência medicamentosa.

Um exemplo particularmente importante encontra-se no biotério do Instituto.

O Mycobacterium leprae, agente causador da hanseníase, apresenta uma característica que continua desafiando a ciência: não pode ser cultivado nos meios artificiais utilizados rotineiramente para outras bactérias. Por essa razão, sua multiplicação experimental depende de modelos biológicos específicos.

O ILSL mantém a capacidade de realizar a inoculação do bacilo em patas de camundongos, procedimento altamente especializado e de grande relevância para a pesquisa e mais recentemente para o monitoramento da resistência medicamentosa. Historicamente, o Instituto também utilizou tatus para a multiplicação experimental do microrganismo.

O Instituto recebe amostras provenientes de diferentes regiões do território brasileiro, contribuindo para a vigilância da eficácia dos medicamentos utilizados no tratamento da hanseníase.

Essa atuação tem importância nacional, particularmente em um país que permanece entre aqueles com maior número de casos novos da doença no mundo.

A manutenção dessa competência demonstra a importância de preservar não apenas instalações e equipamentos, mas também equipes capacitadas e técnicas que exigem muitos anos de experiência.

O ILSL também mantém atividades de assistência especializada, reabilitação e formação médica, incluindo residência em Dermatologia. A integração entre assistência, ensino e pesquisa constitui uma de suas principais características e permite que os conhecimentos desenvolvidos nos laboratórios sejam relacionados diretamente às necessidades dos pacientes.

Durante minha visita, outro setor despertou especial interesse: a biblioteca, também sob a direção de Dra. Patricia Sammarco Rosa.

O acervo do Instituto reúne publicações científicas, documentos históricos, periódicos especializados e obras raras sobre hanseníase e saúde pública. Trata-se de uma coleção de grande valor para a história da medicina e para pesquisadores interessados na evolução do conhecimento sobre a doença.

Um dos objetivos de meu retorno ao ILSL era localizar uma coleção completa da revista Acta Leprologica, publicada até 2001, ano em que também foi divulgado o sequenciamento do genoma do Mycobacterium leprae, marco fundamental para o desenvolvimento da pesquisa sobre o bacilo.

A pedido da Ordem de Malta, principal financiadora da publicação, estamos trabalhando na possibilidade de digitalizar sua coleção e ampliar o acesso ao conteúdo científico.

Após procurar a coleção em outras instituições, encontrei na biblioteca do ILSL a série completa, cuidadosamente preservada e catalogada.

Foi uma descoberta particularmente significativa. A Acta Leprologica também desempenhou um papel importante na divulgação internacional da produção científica em hansenologia, especialmente da escola francesa, reconhecida por suas contribuições ao estudo das neuropatias hansênicas e à cirurgia reparadora. Entre seus representantes destacaram-se o professor Pierre Bourrel e o Dr. André Carayon, médico-general e referência internacional na abordagem das complicações neurológicas da hanseníase. Seus trabalhos contribuíram para o desenvolvimento do conhecimento científico e das técnicas cirúrgicas destinadas à prevenção e ao tratamento das incapacidades, encontrando na Acta Leprologica um importante espaço de divulgação e intercâmbio científico.

Embora a revista tenha desempenhado um papel importante na divulgação do conhecimento em hansenologia, seus volumes ainda não foram integralmente digitalizados e disponibilizados para consulta pública na internet.

A digitalização permitiria ampliar o acesso a esse material, beneficiando pesquisadores, médicos, estudantes e instituições de diferentes países. Representaria também uma contribuição concreta à preservação da memória científica de uma especialidade cuja história está profundamente ligada à saúde pública brasileira.

Essa experiência levou-me a refletir sobre a necessidade de uma curadoria científica e histórica do Instituto Lauro de Souza Lima.

O conceito de curadoria costuma ser associado a museus, coleções artísticas e arquivos históricos. Entretanto, instituições científicas com trajetórias tão relevantes também necessitam de estratégias específicas para identificar, organizar, preservar e valorizar seu patrimônio.

No caso do ILSL, essa curadoria deveria contemplar não apenas o acervo bibliográfico e documental, mas também as coleções científicas, os registros de pesquisas, os equipamentos históricos, as técnicas laboratoriais especializadas e a memória dos profissionais que contribuíram para seu desenvolvimento.

Há ainda uma dimensão particularmente importante: o conhecimento que não está inteiramente registrado em publicações ou documentos.

A experiência de médicos, pesquisadores, técnicos e outros profissionais representa um patrimônio frequentemente pouco visível. Determinadas competências são adquiridas ao longo de décadas e dependem da transmissão direta entre gerações. Sua continuidade exige planejamento, formação e valorização das equipes.

Entendo, portanto, que a curadoria do ILSL não deveria ter como finalidade transformar a instituição em um espaço dedicado exclusivamente à memória. Ao contrário, deveria contribuir para integrar sua trajetória histórica às atividades científicas contemporâneas e às perspectivas de desenvolvimento futuro.

A preservação desse patrimônio precisa caminhar ao lado do fortalecimento das pesquisas, das cooperações institucionais, da formação profissional e da assistência especializada.

O Instituto Lauro de Souza Lima reúne características difíceis de reproduzir: uma longa tradição científica, infraestrutura especializada, coleções de valor histórico, profissionais altamente qualificados e uma rede de colaboração nacional e internacional construída ao longo de décadas.

Sua relevância atual demonstra que estamos diante de um patrimônio em atividade, cuja importância ultrapassa os limites da hansenologia e se estende à pesquisa biomédica, à dermatologia e à saúde pública.

Entre outras, a minha visita de julho reforçou a convicção de que instituições dessa natureza merecem atenção especial nas políticas brasileiras de ciência, tecnologia e saúde.

Preservar o Instituto Lauro de Souza Lima não significa apenas reconhecer sua contribuição histórica. Significa valorizar o trabalho que realiza hoje e assegurar as condições necessárias para que continue formando profissionais, produzindo conhecimento e contribuindo para a saúde pública nas próximas décadas.

Esse é um patrimônio científico que o Brasil não pode perder.

Laila de Laguiche é dermatologista e hansenologista e fundadora do Instituto Aliança Contra a Hanseníase (AAL).

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