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Hospital São Julião, 85 anos de cuidado e a Sapataria AAL

De antiga colônia a referência em dignidade: aos 85 anos, Hospital São Julião ganha passos novos com a Sapataria AAL

Instituição fundada em 1941 para isolar pessoas com hanseníase, transformada pela missionária Irmã Silvia Vecellio, hoje produz palmilhas e calçados sob medida em parceria com o Instituto Aliança Contra Hanseníase

O Hospital São Julião, em Campo Grande (MS), completou 85 anos em 5 de agosto de 2026 escrevendo um novo capítulo de uma história que começou no isolamento e chegou à reabilitação. Desde janeiro de 2025, uma cooperação técnica com o Instituto Aliança Contra Hanseníase (AAL) instalou no hospital uma sapataria especializada, que confecciona palmilhas, calçados e adaptações sob medida para pessoas acometidas pela hanseníase.

Do isolamento ao cuidado

O então Hospital Colônia São Julião foi inaugurado em 5 de agosto de 1941, construído pelo governo federal dentro do programa que espalhou “leprosários modelo” pelo país. Naquela época, a hanseníase não tinha cura, e a política sanitária era o isolamento compulsório: pessoas diagnosticadas eram retiradas de suas famílias e confinadas em colônias, muitas vezes para sempre.

O isolamento deixou de ser lei em 1962, mas a exclusão continuou por décadas. Somente a partir dos anos 1980, com a poliquimioterapia, a hanseníase passou a ter tratamento eficaz e cura. Em 2007, a Lei nº 11.520 reconheceu oficialmente a violação de direitos sofrida por quem foi internado compulsoriamente, garantindo pensão especial a essas pessoas.

Nos anos 1960, o São Julião estava em ruínas, sem estrutura adequada e esquecido pelo poder público. A virada começou com uma mulher que decidiu não aceitar aquele abandono.

Hoje, o hospital atende mais de 20 especialidades, mantém centro cirúrgico, centro oftalmológico, reabilitação e uma escola aberta à comunidade. Segue como Centro de Referência Estadual em hanseníase em Mato Grosso do Sul. Em 2025, recebeu o título de primeiro hospital Lixo Zero da América Latina. Para os 85 anos, lançou um álbum histórico com 530 fotografias, organizado por Lenilde Ramos com pesquisa do historiador Roberto Pellizzer, do Setor de Memória do hospital.

Irmã Silvia: seis décadas devolvendo dignidade

Nascida em 1931 em Auronzo di Cadore, no norte da Itália, a missionária salesiana Irmã Silvia Vecellio chegou ao Brasil em setembro de 1959. Professora, conheceu a realidade do São Julião em 1964 de forma indireta: alunos do Educandário Getúlio Vargas, filhos de internados, levavam cartas e fotografias dos pais que viviam isolados na colônia.

Ao visitar o local, encontrou segregação, abandono e pessoas tornadas invisíveis pelo medo e pelo preconceito. Decidiu agir. Em 1969, foi à Itália buscar apoio e trouxe para Campo Grande os voluntários da Operação Mato Grosso, que recuperaram a estrutura física do antigo asilo. Em 1970, ajudou a fundar a Associação de Auxílio e Recuperação dos Hansenianos (AARH), mantenedora do hospital até hoje.

Sob sua liderança, a colônia de isolamento virou espaço de cuidado, laborterapia, educação e reinserção social. Em agosto de 2026, Irmã Silvia completou 95 anos como Presidente de Honra do Hospital São Julião. Recebeu o Prêmio Nacional Zilda Arns em 2024 e dá nome à medalha com que a Câmara Municipal de Campo Grande homenageia profissionais da saúde.

Irmã Silva e Dra Laila de Laguiche, no HSJ.

Uma gestão que honra o legado

À frente da AARH – Hospital São Julião desde julho de 2022, o engenheiro Carlos Augusto Melke conduz a instituição num ciclo de expansão: ampliação de atendimentos e cirurgias, parceria com a Prefeitura de Campo Grande e o projeto do Hospital do Idoso. Melke costuma lembrar que o maior legado de Irmã Silvia está menos nas obras e mais na forma de olhar para o outro, princípio que orienta o atendimento.

Na direção técnica, o hansenólogo Augusto Afonso Campos Brasil Filho mantém o hospital como referência no diagnóstico e no tratamento da hanseníase no estado. Ele tem alertado publicamente para a subnotificação da doença em Mato Grosso do Sul e defende colocar o ser humano antes da enfermidade. A equipe de fisioterapia e reabilitação é quem leva esse cuidado aos pés dos pacientes, agora com o suporte técnico do AAL.

Superintendente de Gestão do Hospital São Julião, Jéssyka Mendes, Dra Laila de Laguiche, e Dr. Augusto Brasil, diretor técnico do HSJ

A Sapataria AAL no São Julião

Em janeiro de 2025, o Instituto Aliança Contra Hanseníase (AAL) e o Hospital São Julião assinaram um Termo de Cooperação Técnica para instalar no hospital uma sapataria especializada do programa FeetHansen. O São Julião já tinha tradição na confecção de calçados para pacientes desde os anos 1970; a parceria trouxe método, capacitação e tecnologia para ampliar e qualificar esse cuidado.

equipe de reabilitação do HSJ, em capacitação oferecida pelo AAL

A hanseníase pode lesar os nervos dos pés e deixar a pele sem sensibilidade. Sem calçado adequado, pequenas feridas passam despercebidas e evoluem para úlceras e deformidades. Palmilhas e calçados sob medida são, por isso, ferramentas centrais de prevenção de incapacidades.
A implantação incluiu a capacitação da equipe local de fisioterapia na confecção de palmilhas personalizadas e na adaptação de calçados, garantindo autonomia e continuidade ao serviço. Os resultados já aparecem: mais qualidade de vida aos pacientes.

A cooperação segue se aprofundando. Profissionais do São Julião participam do Solea AAL 2026, intercâmbio de boas práticas em sapataria realizado de 22 a 28 de novembro no Instituto Lauro de Souza Lima, em Bauru (SP).

O São Julião integra a rede de Sapatarias AAL ao lado do Instituto Lauro de Souza Lima (Bauru/SP), do Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná (Piraquara/PR) e da Fundação Alfredo da Matta (FUHAM) (Manaus/AM), entre outras unidades.

“O Hospital São Julião é uma casa histórica da hanseníase no Brasil, reconstruída pela coragem de Irmã Silvia. Levar nossa sapataria para dentro dela é levar dignidade para onde ela mais faz sentido.” — Dra. Laila de Laguiche, fundadora do Instituto Aliança Contra Hanseníase

Sobre as instituições

Instituto Aliança Contra Hanseníase (AAL) – Associação civil sem fins lucrativos, com sede em Curitiba (PR), dedicada exclusivamente à hanseníase por meio de ciência, educação e assistência. Atua com três programas: TECHansen (tecnologia assistiva), FeetHansen (palmilhas, calçados sob medida e a rede de Sapatarias AAL) e DOCHansen (teleinterconsulta e apoio psicológico). Qualificado como OSCIP pelo Ministério da Justiça, é Observador Consultivo da CPLP, membro da GlobalSkin e Apoiador Oficial da International Leprosy Association (ILA). Fundado pela Dra. Laila de Laguiche. Site: aal.org.br

Hospital São Julião – Mantido pela Associação de Auxílio e Recuperação dos Hansenianos (AARH), fundada em 1970, o hospital nasceu em 1941 como colônia de isolamento e é hoje Centro de Referência Estadual em hanseníase em Mato Grosso do Sul, com atendimento em diversas especialidades, centro cirúrgico, centro oftalmológico e reabilitação. Presidente de Honra: Irmã Silvia Vecellio. Presidente: Carlos Augusto Melke.

Contato para imprensa – AAL Nicole Morihama, Gerente Geral [email protected] · (41) 99247-8873

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